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Mostrando postagens de julho, 2022

Indiana Lopez, A mulher dos Cabelos de Ferro

Devo partir com ela? Há um mês que penso nisso, seriamente tentada. Sim, isto está bem claro. Como não pensar nisto? Olho a minha vida, este apartamento escuro, de algumas quatro paredes, no miolo da loucura. Este centro de cidade imensa. Joana me seduziu com seu estranho mundo, seu rosto de maçãs salientes, seus olhos oblíquos, seu pescoço grosso. Baixinha, rechonchuda, mas com a cintura fortemente marcada. Uma figurinha de louça que usasse um invisível espartilho. E sua cabeleira? Piramidal, de ondas miúdas que descem armadas em lances retos para os ombros roliços. – Era assim— ela dizia— a gente enchia a boca de querosene e soprava a tocha perto do rosto, num fogarão danado. Era fácil. – Mas Joana, você não se queimava nunca? – Que nada, a gente punha marmelada na língua ... Um pedaço assim. – Ah! Bem, está explicado, a marmelada, veja só... Olhava sua pele rosada e sua boquinha minúscula. E a cabeleira, meu Deus! Não havia dúvida: ela era de circo! – O mais arriscado era quebrar ...

O Jardim Noturno

>Retornando ao casarão, após a temporada paulistana, no trenzinho eu me comovo durante o trajeto final com a beleza do meu pampa apesar da devastação crescente, dos novos campos lavrados e mais árvores cortadas. Mesmo assim, parece que o Pampa misteriosamente resiste, e no caminho, da estaçãozinha para a estância, de charrete, vendo passar uma boiada conduzida por nossos peões à caráter, eu sinto o peito inundado de amor por minha terra. Galdério, com sua fala cantadíssima parece embalar-me com a música autêntica destas pradarias e eu começo a pensar em não mais sair daqui, e entregar o ap paulistano, trazendo o ateliê de volta para cá. A Internet por rádio me permitirá isso, eu não estarei isolada como escritora. Ao avistar o casarão, de longe, enxergo o Rôdo na varanda, de bombachas, esperando-me com o chimarrão na mão. Que alegria! Meu irmãozinho está aqui. Não o deixarei sair mais, até Fevereiro. E quero meus sobrinhos aqui, todos. Hans, Christian, Pati e Pedrirnho. E que tra...

Minha Doutora Jensen (conto de Alma Welt)

Quando estive internada na Clínica(...) em Alegrete, eu conheci a querida doutora Jensen, da qual falei em algumas cartas. Essa mulher admirável, cinqüentona, bela, vivida, culta, e dedicada (uf! não há adjetivos suficientes ou predicados para descrevê-la ) se tornou uma amiga profunda, mais do que minha médica. Que digo? Uma verdadeira mãe para mim, que me descubro carente, já que perdi a minha muito cedo, além de não ter sido muito próxima dela por... digamos, falta de afinidades e incompreensão mútua. Além disso eu era demasiado fixada no Vati, meu pai, que me supria de tudo, até de carinho físico, que Ana Morgado, a Mutti, não sabia dar. Mas, prosseguindo, a doutora Jensen apegou-se a mim, creio, tanto que aceitou o convite de Rodo, meu irmão, para que viesse passar suas férias aqui na estância, e assim podermos continuar minha terapia, unindo o útil ao agradável. Foi um período esplêndido, e eu contei alguns momentos importantes, para a Andréa* nos e.mails que lhe enviei em Jane...

O Condestável Gottfried (conto de Alma Welt)

O condestável Gottfried suspendeu a caçada, entregando sua balestra ao seu escudeiro e estendendo a mão enluvada, apanhou o bilhete que lhe trazia um pajem que chegara a galope. Leu, e em seguida amassou o bilhete, e com ele cerrado no punho deu rédeas ao cavalo, que por sua vez galopou de volta ao castelo. O fidalgo, visivelmente irado, cruzou a ponte levadiça a galope, e apeando do cavalo ainda em movimento, atravessou parte do pátio, espantando as galinhas, e saltando alguns degraus adentrou o amplo portal, e a passos largos, como um furacão, foi direto à cozinha, onde encontrou Lady Margareth, a inglesa que desposara, depois de um tempestuoso caso diplomático que incluíra paixão e intrigas palacianas, e ali em frente aos cozinheiros, copeiras e outros serviçais, homens e mulheres, agarrou brutalmente sua esposa que quis esboçar um sorriso, mas logo assustada e horrorizada, foi virada de costas e inclinada sobre a grande mesa da cozinha, teve sua ampla saia e as suas sete anáguas le...

Salomão ou Lear, de Saias

Estou só, à frente desta estância, comandando o andamento da casa e da vinha. E isto me sobrecarrega, já que não quero abrir mão de minha pintura e poesia. A posição de “diretora”, ou administradora deste pequeno universo, me coloca em situações inusitadas, de um certo poder, até mesmo sobre o destino de um número de criaturas que passaram a depender de mim, como outrora, do Vati. Este “cargo” deveria caber ao Rôdo, por acordo entre nós, após a morte de nosso pai, logo estou um tanto revoltada com meu irmão, que parece fugir de suas atribuições. Preciso explicar que Rôdo está viajando, há mais tempo do que deveria, a meu ver, com seu carrinho esporte, pelo mundo, correndo, jogando... Os peões e suas famílias parecem me ver como uma espécie de rainha. Os homens tiram o chapéu na minha presença, e as mulheres curvam ligeiramente o joelho quando vêm até mim, na varanda, diante da minha cadeira de balanço. Eu lhes ofereço o meu mais doce sorriso, mas eles parecem receber isso como a benev...

Nosso Muro Proibido

Quando guria, ainda em Novo Hamburgo, antes de mudarmo-nos definitivamente para a estância, eu, e Rôdo aproveitávamos ao máximo o casarão em que vivíamos, quase sem sair à rua, além do período escolar, graças a um imenso quintal com jardim, horta, pomar, e muitas flores, que chegavam até um imenso muro de pedras que era o limite intransponível, dos nossos “domínios”, como gostávamos de falar, entre nós, pomposamente, quando fantasiávamos de nobres, nas nossas brincadeiras. Eu era, naturalmente, sempre uma princesa, e Rôdo o meu fiel cavaleiro, já que nunca era o irmão somente, mas o amado. Sim, era intransponível o grande muro, pois nos era proibido galgá-lo, transpô-lo, como uma das poucas regras peremptórias do nosso pai. Ou era de nossa mãe, esse mandato? Não sei bem. O fato é que esse muro representava, ou ocultava um mistério, que instigava nossa curiosidade. Do jeito que o Vati nos criava, essa restrição nos parecia instigante, e não demoraríamos a transgredi-la. Uma noite, fui...

As Pequenas Flores do Riso

Não suporto mais. Preciso voltar ao sul. Este apartamento, que eu chamo de ateliê, dentro de um condomínio burguês, em plena Oscar Freire, no meio dessas lojas sofisticadas, tudo isso começa a me enojar. Eu sei, meu estúdio é belo, eu o fiz assim. Mas nada disso tem a ver com as minhas raízes, que estão no campo, isto é, no Pampa, no meu casarão, no meio do meu jardim, do meu pomar e do vinhedo do meu avô; que me esperam, eu sei. E sei, porque se me ausento por longo tempo noto-lhes o ar de decadência. E se ali demoro, vejo tudo reflorescer, vivificar-se. Rôdo não se importa tanto: ele não pára, suas ausências são mais prolongadas que as minhas, ele roda o mundo. Ele diz: “Alminha, por quê perdes tempo nessa cidade? Ela te engolirá! São Paulo não é uma cidade, é um vício, uma dissipação. Prefiro os meus cassinos e pousadas, interligados pelas mais belas paisagens do mundo, que percorro, com o rosto ao vento, no meu Porsche. Por quê não vens comigo? Eu te farei viver outras aventuras. L...

Sons de Cristal

Volto a lembrar-me, com saudade, das nossas festas de Natal e fim de ano, na estância, durante a minha infância. Dias gloriosos, aqueles, em que me levantava cedo, em manhãs esplendorosas de verão, quase gritando de alegria por existir, e me sentir... tão feliz! As festas, para mim, começavam já nos preparativos, na cozinha, e na sala preparada, sobretudo com a montagem do nosso grande pinheiro de Natal. Matilde era a grande festeira, responsável pelo maravilhoso peru assado, guarnições, saladas e doces. O Vati cuidava da escolha dos vinhos, de nossa própria produção. A Mutti gerenciava tudo, a começar pela decoração da sala e a preparação condigna da grande mesa que nos congregaria a todos. Solange e Lúcia, minhas irmãs, as ajudavam, enquanto eu e Rôdo nos divertíamos em observar e bater palmas, ou simplesmente colher flores e fruir o clima adorável de preparativos natalinos. Mas recordo particularmente o Natal dos meus treze anos, quando Rôdo, numa grande inquietação de sua libido d...

A Navalha e o Abismo

Meu pai possuía uma navalha de barbear que me fascinava, em minha infância. Era um objeto magnífico, com cabo de marfim, dentro de um belo estojo, com a marca alemã em letras douradas: Abgrund & Sohn. Ele não a usava desde a sua juventude, quando deixara a barba crescer e eu só o conheci barbado, patriarcal, a princípio fulvo e grisalho, depois todo branco. No entanto ele guardava a sua navalha, que lhe era cara por alguma razão. Digo isso, por que, estranhamente, eu nunca lhe perguntei como a obtivera, se ganhara de alguém, se a comprara numa loja, ou se fora de seu pai, coisas assim. A razão da minha discrição, acredito, é que o objeto parecia secreto, a mim, que cheguei perto da obsessão, por um período, naquela época. Foi logo que descobri o estojo na gaveta de sua escrivaninha, na biblioteca. Eu o abri, e deslumbrada, num nicho em depressão sobre o veludo, dormia o objeto que me... “vertiginou”. Eu desnudei a lâmina, lentamente, com o dedo indicador toquei-lhe o fio, e imediat...

A Nova Amiga

Minha amiga Vânia me telefona bem cedo convidando-me a encontrá-la num barzinho aqui perto na Oscar Freire para tomarmos um café e botarmos o papo em dia. Jamais esperaria que ela tivesse uma segunda intenção e que esse telefonema tivesse as conseqüências que ora passo a narrar a vocês, meus confidentes leitores. Depus a paleta, limpei os pincéis, dei uma última grande olhada na tela nascente no cavalete e passei a ocupar-me de uma caprichada toilette: banho, escova nos cabelos, e uma esmerada escolha de uma roupa “casual” mas elegante. Foi como se meu inconsciente captasse alguma coisa, um prenúncio, uma aurora. Saí depois de deixar um auspicioso e sintomático bilhete brincalhão para minha faxineira que chega sempre um tanto tarde devido à viagem que necessita fazer para chegar neste seu emprego. Minha querida Luíza, minha nova “mãe-preta”, como acostumei-me a chamá-la: “Querida Luiza, fui ao encontro do “grande amor da minha vida!”. Tem comida na geladeira. Esquente e coma o que v...

O Violino de Magritte

Meu irmão Rôdo trouxe um amigo para o fim de semana na estância. Trata-se de um rapaz interessante, não sei se bonito, mas extremamente viril e seguro de si. Percebe-se isso por sua naturalidade e absoluta falta de interesse de provar o que quer que seja. Sua capacidade de conversar sem nunca falar de si mesmo ou revelar qualquer coisa sobre sua vida ou suas origens é invejável embora ao mesmo tempo seja um pouco misteriosa, não sei se de maneira positiva. Esse rapaz, no entanto, não parece dissimulador no seu mistério, e isso é o suficiente para me deixar intrigada e mesmo fascinada. Comecei então a testar o rapaz de maneira sutil com pequenas distrações sensuais, como um botão da blusa esquecido de abotoar; uma saia fina sem calcinha por baixo, um vestido de tecido muito fino em cima da pele, etc. Mas sobretudo um ar vago e sonhador e gestos lentos e muito harmônicos. Nada, o rapaz continua como um hóspede modelo, educado, e interessado apenas nas coisas da estância contadas pelo meu...

O Rosto de Musidora

Depois de muito tempo, tomada de uma súbita nostalgia subo ao sótão do nosso casarão, à procura de não sei o quê. Ao entrar no aconchegante aposento sob o forro inclinado de belo madeiramento lanço os olhos primeiramente ao pequeno catre que foi o leito de Rôdo em sua infância e parte de sua adolescência, e onde eu costumava tantas vezes me deitar ao seu lado até o dia em que Solange nos flagrou juntos e tudo mudou. Mas não é isso que procuro agora. Dirijo-me à grande arca que meu pai colocou ali com as lembranças de sua vida privada que ele não quis deixar expostas na biblioteca com aquelas outras que ele podia compartilhar com todos. Abro a pesada tampa de espessa madeira antiga do tempo dos escravos, e começo a retirar álbuns, fotos soltas, cadernos de anotações e... velhos postais. Um em especial chamou-me a atenção: mostrava uma diva do cinema mudo chamada Musidora, um rosto típico dos anos vinte, portanto uma beleza antiga, datada, com aquela boquinha pintada em forma de coraçã...

A Hospedeira , ou Ao Sul de Mim Mesma

Conto de Alma Welt (1972-2007) Quando estou aqui na estância, às vezes me bate aquela angústia, e eu peço para o Galdério selar a minha égua baia e saio por estas pradarias em direção ao nada, ao sul... de mim mesma. E ponho minha montaria num galope doido, até a pobre ficar exausta e recusar-se a prosseguir nesse compasso. Aí, já estou muito longe do casarão, e meio perdida. Mas minha égua, Altamira sabe sempre retornar, e eu solto a rédea para ela nos conduzir, voltamos a passo, lentamente e chegamos em casa ao cair da noite. Entretanto, antes de ontem fui parar numa propriedade desconhecida para mim, com árvores frutíferas, macieiras, pereiras e cerejeiras em volta de um chalé modesto, mas encantador, com um ar acolhedor, com a chaminé fumegando, denunciando proximidade do jantar. Apeei, amarrei a rédea da minha égua na balaustrada da varandinha onde havia uma cadeira de balanço austríaca, bati à porta, esta abriu-se e uma senhora idosa, de cabelos brancos, rubicunda, de aspecto...

Anagramas ( conto de Alma Welt)

De repente, há poucos dias, tive o súbito impulso de fazer anagramas. Tudo começou após a visita ao meu atelier, de uma nova amiga, a grande artista plástica Renina Katz, gravadora emérita: xilógrafa, litógrafa e água- fortista soberba. Grande dama da gravura brasileira, Renina é uma mulher madura e bela. Soube que despertou inúmeras paixões em sua juventude. O pobre do Pancetti, grande pintor e um homem simples, tinha-lhe adoração, não correspondida, claro. Soube que quase duelou por ela, acreditando-a ofendida por alguém. Renina apenas admirava-lhe a obra, havendo um abismo social e cultural entre eles. Naturalmente Renina não me falou nada sobre isso. Descobri essas curiosidades de sua biografia, num antigo número de uma revista extinta, numa excelente matéria sobre o marinheiro pintor. Refinada e culta, muito viajada, Renina honrou-me com a sua visita e fiquei horas a ouvi-la, prazerosamente. A uma certa altura de nossa conversa, citou o anagrama famoso de Salvador Dali: Avida Dol...